A viageira

Woman with travel suitcase

Desceu sem pressa, parcimoniosamente. O tempo era uma invenção dos apressados, não dela. Na mão direita uma mochila com livros. No ombro esquerdo uma pesada bolsa de couro. Para contrabalançar. Foi a última a descer do avião. A última a desejar bom dia às aeromoças que, ao pé de porta, e com sorriso profissional nos lábios, despediam e contavam os passageiros, não fosse que algum deles tivesse a sublime ideia de ficar por lá, escondido no banheiro ou no porta-bagagem, pois de tudo há nos campos do senhor. Entendia muito bem a preocupação delas, nestes dias de discórdia e violência que nos tocaram viver. Sorriu ao perceber seu silencioso suspiro, de “ufa, até que em fim”, quando ela saiu do avião.
A fila do passaporte lembrou-lhe uma centopeia que esticava, encolhia e voltava a esticar. Uma centopeia humana, cheia de pés que se arrastavam num só compasso, zaszaszaszas.
Mostrou o passaporte com um bom dia e forçou um sorriso. Lembrou-se das aeromoças, e voltou a sorrir, agora de verdade. Caminhou até a esteira numero oito, com a esperança de que a mala chegasse bem. Teve tempo de ir ao banheiro, de escutar a conversa das mulheres na fila, de lavar os dentes, de jogar água no rosto… e ainda cansou-se de esperar ao lado da esteira. Felizmente, a mala chegou inteira.
Considerou a possibilidade de entrar no Free Shop, comprar um perfume, um batom, ou um champanhe para comemorar sua chegada. Mas olhou os rostos em volta, e decidiu sair do aeroporto. Queria chegar a casa o mais rápido possível.
Respirou fundo e, com a declaração alfandegaria preenchida, dirigiu-se ao botão que liberaria, ou não, a sua saída. Não queria abrir a mala. Não queria que aquelas pessoas enfiassem as mãos nas suas roupas, em busca de sabe-se lá o que. Não queria apertar aquele botão. Ajeitou a bagagem no carrinho. Compôs a melhor cara de paisagem de que foi capaz, e vagou o olhar pelos grupos à sua frente. Um homem apertou o botão, a luz verde acendeu, ele e a família saíram corredor afora. A luz verde acendeu também para dois homens jovens, com aparência e seriedade de executivos. Para três risonhas amigas com caras e bocas de recém-formadas. Para dois bronzeados amigos, com chinelos nos pés e prancha de surf no carrinho. Para o silencioso casal de idade incerta, que estava justo à sua frente. A luz acendeu verde para todos. Para todos! Era a sua vez. Colocou as mãos no carrinho e empurrou-o. A seguir esticou o dedo e… Vermelho. Porra! se ouviu dizer. Vermelho! Olhou o homem da alfandega. Ele devolveu-lhe o olhar. Ela sorriu. Ele agitou a mão e, com outro sorriso, que ela julgou sinistro, indicou que se aproximara. Ela negou com a cabeça. Ele não entendeu. Ela retrocedeu.
O carrinho e ela saíram da fila, de ré. As pessoas atrás xingaram. Não escutou. Não olhou. Não… Abriu a mala, enfiou a mão, sacou um autêntico Pata Negra espanhol, uma faca “jamonera”, olhou os fiscais nos olhos, e perguntou: Servidos?

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