Luto

cemiterio em São Paulo, Google

 

Pegou do armário o pretinho básico que guardava para as ocasiões especiais, as luvas de pelica, um discreto chapéu de aba curta, e uns sapatos elegantes e confortáveis. Dispus tudo no sofá, e foi dormir. Amanheceu antes que o próprio dia e, após um café da manhã frugal, dedicou um bom tempo a se arrumar. Acentuou a palidez do rosto, ressaltou o tom escuro da olheira, e não colocou batom. Ante o espelho, ensaiou o gesto de tristeza, o sorriso enigmático e circunspecto, o olhar húmido. Já vestida, e com o semblante compungido, os vizinhos a viram sair do portal e chamar um taxi. Desceu no cemitério. Sentiu o cheiro da dor. Viu anjos de pedra a velar o silencio. Seguiu enfrente até divisar o cortejo. Ouviu o responso do padre. Palpou no ar a solidão da viúva. Na hora dos pêsames, acercou-se a ela: eu sou a outra, disse-lhe. Lembrou-se do refrão espanhol “dor de cotovelo e de viuvez doe muito, mas dura pouco”. O desta vai durar é nada, pensou com a satisfação do dever cumprido.

mini relato de minha autoria publicado em: http://www.hiperbreves.com.br

 

Esta entrada fue publicada en Uncategorized y etiquetada , , , , . Guarda el enlace permanente.

Responder

Introduce tus datos o haz clic en un icono para iniciar sesión:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Cerrar sesión /  Cambiar )

Google photo

Estás comentando usando tu cuenta de Google. Cerrar sesión /  Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Cerrar sesión /  Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Cerrar sesión /  Cambiar )

Conectando a %s