A GARGALHADA

noiva-006

Quando o noivo tomou a mão da noiva e pronunciou o famoso “sim quero”, uma gargalhada trovejou pela nave principal da igreja. Fugida de lábios invisíveis estourou raivosa contra a bobada envidraçada do templo. Era uma gargalhada feroz e lúgubre; doída e ríspida. Uma gargalhada difícil de esquecer, dessas que deixam marcas indeléveis na memória. No altar, a noiva voltou à cabeça, olhou os convidados e percebeu neles um gesto de estupefação, quiçá de medo. Ninguém ousava respirar. Petrificados todos num silencio denso e incómodo. No coro, o órgão iniciou os primeiros acordes da Ave Maria de Gounod, mas ninguém conseguiu cantar. A sombra da gargalhada insolente o impedia. Atónito, o padre olhava os contraentes com olhos interrogadores. Descontrolada, a noiva pedia aos berros que alguém amordaçasse aquela sombra branca e despudorada que não parava de gargalhar. Já o noivo, olhos clavados no chão, camisa molhada e cabelo empapado em suor, apertava a aliança com desespero.

Anuncios
Esta entrada fue publicada en Uncategorized y etiquetada , , , . Guarda el enlace permanente.

Responder

Introduce tus datos o haz clic en un icono para iniciar sesión:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Cerrar sesión /  Cambiar )

Google photo

Estás comentando usando tu cuenta de Google. Cerrar sesión /  Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Cerrar sesión /  Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Cerrar sesión /  Cambiar )

Conectando a %s